“Nothing is worth thinking about. Everything is worth being with…”
— James Low
Após as encruzilhadas e os novos caminhos… o mapa e o território!
Você já parou para pensar sobre essa ideia de que o mapa não é o território? De que pensar sobre a vida não é o mesmo que estar em contato com ela — com a experiência, com o corpo, com o presente?
Talvez parte do nosso sofrimento comece justamente quando confundimos o mapa com o território: quando substituímos a experiência pelo pensamento sobre a experiência, quando transformamos conceitos em realidade e passamos a viver dentro das histórias que contamos sobre nós mesmos e sobre o mundo.
Esquecemos que mapas são mapas: ideias, palavras, teorias, crenças, modelos, identidades, memórias. Representações que podem nos orientar, mas que nunca são a própria realidade, nenhum mapa consegue conter a totalidade do território. Não são a experiência vivida e corporificada do mundo e da vida. E, então, o mapa, que deveria nos ajudar a caminhar, pode se transformar no lugar onde ficamos presos. Rígidos. Fixos. Identificados.
Mas o mapa não é inimigo do território, precisamos de mapas. Precisamos de ideias para organizar, planejar, criar, comunicar, construir projetos e encontrar caminhos. Talvez não se trate de abandonar o mapa, mas saber quando consultá-lo e quando guardá-lo no bolso e simplesmente caminhar.
Como usar, então, o mapa e o território a nosso favor?
A ideia de que “o mapa não é o território” foi formulada pelo cientista e filósofo Alfred Korzybski (1879–1950), fundador da Semântica Geral.
«O mapa não é o território, a palavra não é a coisa que descreve. Sempre que o mapa é confundido com o território, produz-se uma “perturbação semântica” no organismo. A perturbação persiste até que se reconheça a limitação do mapa».
Quando confundimos o mapa com o território, esquecemos que toda representação é apenas uma representação — uma aproximação, uma redução, uma perspectiva. O território, pelo contrário, é aquilo que está acontecendo agora, minhas sensações, emoções, movimento, meu corpo – o espaço dentro do qual a experiência surge, a curiosidade, o habitar-se.
O mapa é abstrato. O território é vivido.
E aqui podemos lembrar Wittgenstein:
“Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo” (Tractatus Logico-Philosophicus, 5.6 – 1921).
Aquilo que não consigo nomear – uma experiência, uma sensação, algo para o qual ainda não tenho vocabulário – pode parecer não existir. Mas existe. Talvez apenas esteja além do mapa que tenho disponível. Penso, por exemplo, no relato de Tamara Klink em Bom dia, Inverno (https://www.tamaraklink.com/pt), sobre o extenso vocabulário utilizado em regiões do Ártico para descrever o gelo. Para quem vive em lugares mais quentes, “gelo” pode parecer uma categoria bastante simples. Para quem convive cotidianamente com ele, diferentes formas, texturas e condições exigem diferentes palavras. O mapa se expande para abarcar o território.

As práticas somáticas – do grego somatikós, relativo ao corpo ou corporal – têm sido, para mim, uma maneira de voltar ao território. Yoga, Feldenkrais, meditação, massagem, Experiência Somática são práticas diferentes, mas que podem nos devolver ao corpo, ao presente, à experiência direta.
Esse tem sido o caminho que venho percorrendo, do mapa ao território, e que gostaria de compartilhar com vocês. Pois como bem diz uma das minhas professoras, Liana Netto (https://www.liananetto.com.br), “não posso me orientar por um corpo que não posso sentir”. Por vezes, esse caminho é desafiante. Requer mudança de hábitos, disciplina, lucidez, mas também pode devolver algo precioso: vitalidade, presença, curiosidade, alegria.
Na Experiência Somática, por exemplo, voltamos nossa atenção para o somático, para o corpo como continente onde a experiência acontece. E podemos começar com uma pergunta muito simples:
Qual é a diferença entre dizer “estou ansios@” e sentir, neste exato momento, aquilo que chamo de ansiedade? Onde ela está no corpo? Como se manifesta? Como sei que estou ansios@? O que muda quando permaneço um pouco mais com a experiência, antes de explicá-la?
O que acontece quando paramos de tentar explicar a experiência para simplesmente estar com ela? Às vezes dá medo, nosso corpo guarda traumas, memórias dolorosas, experiências dificeis, sensações que aprendemos a evitar. Às vezes nem sabemos que estar com a experiência pode ser importante. Às vezes nem sabemos como fazer isso. Mas é possível e não se trata de simplesmente “sentir tudo” ou mergulhar sozinh@ em qualquer experiência.
Trata-se de desenvolver, pouco a pouco, a capacidade de perceber, sentir e permanecer em relação com aquilo que acontece — com segurança, curiosidade e apoio quando necessário.
Sair de “o que significa isso?” para “como é isso?”
Outro método que uso no meu trabalho e que dialoga de forma muito bonita com a Experiência Somática é Feldenkrais. Nas aulas temos a oportunidade de usar o movimento como instrumento para explorar nosso território, de maneira segura. O movimento como uma forma de investigação. Não para executar perfeitamente um movimento, mas para descobrir.
E se eu fizer um pouco mais devagar?
E se fizer de outra maneira?
E se não precisar chegar a lugar nenhum?
Não se trata tanto de certo ou errado, mas dar ao sistema nervoso a oportunidade de experimentar outras possibilidades, outros caminhos, outras formas de organizar o movimento.
Trata-se de investigar.
Não há certo ou errado. Há apenas a experiência, o campo cinestésico. Pequenas diferenças podem abrir novas possibilidades de experiência, novas identidades mais funcionais, mais potentes.

Gosto muito de uma história que o professor Goenka conta nos retiros de Vipassana (https://www.dhamma.org/). A história é mais ou menos assim:
O Buda estava ensinando quando uma pessoa lhe perguntou como poderia chegar ao estado de iluminação. O Buda perguntou de onde ele vinha. O homem respondeu que vinha de uma aldeia próxima. Então o Buda perguntou:
— Como você chegou até aqui?
O homem começou a descrever o caminho: as estradas, as pontes, as curvas, os lugares onde precisou virar à esquerda e à direita. Ele tinha o mapa.
Então o Buda perguntou:
— O fato de você descrever o caminho foi suficiente para que você chegasse até aqui?
— Claro que não — respondeu o homem. — Eu precisei percorrê-lo.
Ou seja, podemos estudar o mapa durante anos. Podemos ler livros, fazer cursos, compreender conceitos, colecionar teorias, conversar sobre presença, corpo, meditação, regulação, consciência. Tudo isso pode ser muito valioso. Mas ninguém pode caminhar por nós. Em algum momento, é preciso sair do mapa e entrar no caminho. Sentir. Porque a vida não acontece no mapa. A vida acontece no território.
Deixo aqui um pequeno documentário, When the Moment Sings the Muse Within, sobre música, ritmo e movimento.
É um trabalho já antigo, talvez até um pouco datado, mas para mim retrata de uma maneira muito bonita essa vida acontecendo no corpo, no movimento, no território. Muito Feldenkrais. Espero que gostem. E que nossa musa interna possa sempre cantar — e que possamos ter presença suficiente para escutá-la.