“O caminho certo para a totalidade
é feito de desvios do destino e curvas erradas.”
C. G. Jung
Há quem, ao longo de uma vida, permaneça no mesmo caminho: no mesmo trabalho, na mesma profissão, na mesma casa, na mesma cidade, na mesma relação, nos mesmos hobbies – em todos eles ao mesmo tempo ou apenas em alguns.
Há quem, durante uma vida, percorra vários.
Permanecer nos mesmos caminhos ou percorrer vários? Não há melhor nem pior, certo nem errado. É o que é. A vida e as suas escolhas. Ou, talvez, a angústia de ter que escolher. Segundo Heidegger, “é na angústia que a liberdade de ser (…) mostra-se”. Fazer escolhas. Permanecer ou partir, na tentativa de sermos (ou encontrarmos?) cada vez mais quem realmente somos, de forma autêntica. Não é fácil!
Mas voltemos às encruzilhadas.
No meu caso, percorri muitos caminhos. Por curiosidade, por falta de uma boa bússola, por medo, por coragem — os motivos foram inúmeros. Alguns revelaram-se becos sem saída; outros, caminhos sem volta. E como não pensar em Bowie, em Ch-ch-ch-ch-changes?
(link video: https://youtu.be/JIAUS-KlOyU?si=CI3YVt-DYyvr6JOu)
“Still don´t know what I was waitin´ for
And my time was runnin´ wild
A million dead end streets and
Every time I thought I´d got it made
It seemed the taste was not so sweet
[…]
Ch-ch-ch-ch-changes
Turn and face the strange
[…]
Strange fascinations fascinate me”.
Gabor Maté, no episódio acima do podcast On Purpose, parafraseando Nietzsche, diz que talvez esses becos sem saída não existam. O que existe é a descoberta de que aquele não era o caminho a seguir e, justamente por isso, foi uma oportunidade de recalcular a rota. Tomara! Porque talvez sejam justamente essas curvas – e não os trajetos lineares e previsíveis – que nos façam crescer.
(Médico e autor húngaro-canadense, Gabor Maté desenvolve um trabalho extraordinário e pioneiro sobre trauma, adição, stress e por aí vai. Se você ainda não o conhece, vale muito a pena conhecer. Dá uma olhada… ou melhor, escutada! Bowie, esse dispensa apresentações!)
Becos sem saída, mudanças, rotas recalculadas, novos caminhos, encruzilhada.
Meu percurso me traz hoje a uma encruzilhada formada por quatro caminhos. Quatro caminhos que se tornaram pilares da minha vida. Em ordem alfabética (porque não saberia ordená-los de outra forma): Dharma (os ensinamentos do Buda), Experiência Somática, Feldenkrais e Yoga.
E talvez seja isso que acontece quando uma encruzilhada deixa de ser apenas um lugar de passagem e de indecisão para se transformar, ela própria, num caminho. Não quatro caminhos paralelos, mas quatro percursos que se cruzam, dialogam e se enriquecem mutuamente. Quatro formas de compreender o corpo, a mente, a presença e a relação com o outro. Quatro caminhos que ampliam o meu trabalho, a forma como me vejo e como encontro o outro. Em última instância, quatro caminhos que apontam para a mesma direção: a cura.
E é sobre esse caminho que gostaria de conversar com você nas próximas newsletters.
Não para apresentar respostas prontas, mas para partilhar perguntas, experiências e descobertas. Como esses quatro caminhos — Dharma, Experiência Somática, Feldenkrais e Yoga — têm dialogado entre si e transformado a minha forma de trabalhar, de compreender o corpo, a mente, a presença e a cura.
Porque, quando nos permitimos mergulhar na vida de corpo e alma, muita coisa se transforma. E muita coisa se cura.
Espero que esse meu percurso também possa despertar algo em você: curiosidade, reflexão, inspiração ou, quem sabe, em alguma encruzilhada da sua vida, possa te ajudar a encontrar um novo caminho. Até já!