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O mapa e o território – parte II

“Suffering is only intolerable when nobody cares.”
— Cicely Saunders, fundadora do movimento moderno de hospice e dos cuidados paliativos

Na última newsletter, trouxe o tema do mapa e do território. E, de alguma forma, esse assunto ficou me rondando, sem que eu percebesse muito bem.

Fui me dar conta disso quando, um belo dia, o território no qual me vi inserida não era, exatamente, um território em que eu estivesse muito contente em navegar.

Na verdade, eu queria era sair correndo dali. Sentia-me numa caverna escura, úmida, fria. E então me veio a pergunta:

Tá, tudo muito lindo isso de sair do mapa e entrar no território. Mas e se o território não for um mar de rosas, e sim uma caverna escura? Um pântano lodoso? Um deserto escaldante?

O que faço?

Naquele momento, sendo sincera comigo mesma, a vontade era sair correndo dali. Voltar para o mapa mental, tão familiar e aparentemente controlável e confortável. O bom e velho: “mais vale o mau conhecido que o bom por conhecer”.

Volto correndo aos meus julgamentos, às minhas queixas, à minha vítima. Para a minha bolha “segura”. Vou e volto correndo. Vou de novo. Volto mais rápido ainda.

E, no meio disso tudo, olho ao redor e vejo guerras, mudanças climáticas, descaso político, corrupção, fome, pessoas mal-educadas, injustiças, conflitos, dores, absurdos, falta de acolhimento, insegurança, solidão. O samsara nu e cru. E me dou conta de que talvez não dê mesmo conta de permanecer ali. Porque dói. É desconfortável. Apertado. Intolerável. Sofro.

Quantas vezes fazemos isso? Saímos. Vamos ao encontro daquilo que pulsa, daquilo que nos move. Nos arriscamos. Às vezes, o que se apresenta é uma experiência incrível. Mas nem sempre. 

É esse, então, o tal território que eu devo habitar?

Aiii… Sério?

O fato é que não aprendemos a lidar com as emoções. Somos treinadas para pensar bem, pensar rápido, resolver problemas, encontrar respostas. Vivemos no mapa. Mas ninguém nos ensina a sentir bem. A sentir com profundidade. A habitar o território. A lidar com aquilo que nos inunda. Então não sabemos sentir — especialmente aquilo que foi rotulado como desagradável, indesejável, inadequado: a tristeza, a solidão, o abandono, a raiva, o medo.

Rejeitamos, nos julgamos, nos condenamos por sentir o que sentimos.

O primeiro ensinamento do Buda foi que o sofrimento existe. Faz parte de ser humano. Porém, quando não conseguimos sustentar momentos de dor, acabamos aumentando ainda mais o sofrimento. Sofremos porque estamos sofrendo – outro ensinamento do Buda!

Desde a última newsletter tenho me debruçado sobre esses momentos. Momentos em que é difícil permanecer. Em que a fricção entre nós e o mundo, as pessoas e nossas próprias emoções parece maior, quase insuportável – então por que permanecer? Porque se não permanecemos, não há mudança, não há crescimento, não há vida.

Deixo aqui o link para um podcast, com boas reflexões sobre o assunto, da Revista Gama com o psiquiatra, professor da USP e escritor, Daniel Martins de Barros: sofrimento e depressão. 

Achei extremamente sensato e humano. Uma das belas observações que ele faz é:

“O sofrimento é um alarme, é uma força motriz para a mudança. Tem coisas que você consegue mudar, e por isso o sofrimento acaba sendo útil. Agora, tem coisas que não têm solução. E aí você vai ter que trabalhar  internamente para chegar a estratégias como compartilhar a dor, como ressignificá-la, como criar narrativas para inserir aquele sofrimento.”

Quais são as suas estratégias para permanecer no território, com a experiência? Seja ela qual for?

Aprendi com a Experiência Somática a começar a observar os momentos que me desestabilizam e, também, aquilo que me ajuda a voltar a um estado de maior estabilidade. 

A princípio, pareceu-me algo bastante banal. Mas, para minha surpresa, eu não tinha esses recursos na ponta da língua.

Claro, quando me perguntaram pela primeira vez, nomeei rapidamente yoga, meditação, natureza… que, de fato, são excelentes recursos e práticas. Porém, reconhecer os pequenos momentos do cotidiano que têm o poder de me autorregular e aqueles que me desregulam, que são desafiadores, e observar como reajo, é algo simples, porém de grande potência. 

Ao passar a prestar mais atenção ao que, de fato, ajuda a estabilizar o meu sistema nervoso, descobri que lavar a louça e varrer a casa estavam no meu TOP 10! Algo simples, fácil que já sabia intuitivamente. Mas, ao identificar essa capacidade de autorregulação em meio ao cotidiano, percebi a importância de saboreá-la um pouco mais, realmente sentir o que acontecia. Seja varrendo a casa, praticando yoga ou meditação, olhando o pôr do sol – momentos que podemos considerar “banais” no dia a dia viraram grandes recursos – tábuas de salvação, caixinhas de SOS em meio a tempestades. 

Podemos ficar com o desagradável (ou desafiador) um pouco mais.

E comecei também a perceber outras coisas.

Momentos recursivos. Pessoas recursivas.

Comecei a identificar quais são as pessoas que verdadeiramente me nutrem, que me ajudam a regular o meu sistema nervoso, que me acalmam, que me devolvem a mim mesma, que tornam o território mais habitável.

Porque, como nos lembra Cicely Saunders:

“Suffering is only intolerable when nobody cares.”

E você? Quais os teus momentos e pessoas recursivas? Conta para a gente! Conforme nos pede Jung:

“… considero que todo aquele que, afastando-se do caminho comum, se dispuser a abrir trilhas próprias, tem o dever de comunicar à sociedade tudo quanto encontrou em suas viagens de exploração: se foi água fresca para o alívio dos sedentos, ou apenas desertos de areia do equívoco estéril. O primeiro serve para ajudar, o segundo, para prevenir. (…)”

– C.J.Jung, VII/1, 1987.

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